31 de jan de 2008

Professora novata sofre

Quando comecei a dar aulas na Copac minha maior preocupação não era com o ensino do espanhol mas sim com a aceitação das turmas ao meu método de ensino. Como eu daria aulas para o segundo grau essa preocupação se agravava porque alguns alunos do colegial acham-se já aprovados e não fazem o menor esforço para ser simpáticos.

Lembro-me que na minha primeira semana fui bem acolhida por algumas turmas, enquanto que em outras alguns alunos torceram o nariz quando eu disse que era a nova professora de espanhol. Alguns alunos chegaram inclusive a retrucar:

- Espanhol pra quê? Já temos tantas matérias...

E assim fui levando, apresentava-me às turmas tentando manter a calma e mostrar-me o mais simpática possível. Mas quando cheguei ao terceiro ano, vários alunos olharam-me de cima a baixo ostensivamente enquanto eu pigarreava e me preparava para iniciar minha apresentação.

Um tanto nervosa iniciei meu discurso, mas mal havia começado quando um aluno levantou-se e me interrompeu arrogantemente:

- Ah, mas pra quê estudar espanhol? Espanhol é igual Português!

Não sei se demonstrei todo meu desagrado na voz, mas olhando fixamente pra ele disse bem séria:

- Ótimo, e como eu sei que vocês todos dominam o português, creio que não teremos problemas.

Os alunos entreolharam-se, o aluno que me interrompera sentou-se. Creio que entenderam meu recado, porque dali pra frente realmente não tivemos mais problemas.

(por Zailda Mendes)

26 de jan de 2008

Ortografia - uma faca de dois legumes

Escrevo muito em inglês e espanhol e quando me aventuro no bom e velho português às vezes me assaltam dúvidas cruéis: excessão? exceção??? Mas pior que ter algumas dúvidas é não ter dúvida nenhuma.

Outro dia me entra no msn um rapaz com um papo mais ou menos assim: "Olá garota! Com liçensa. Faiz tempo que quero coverçar mais voçê tá sempre off." A variante abominável do idioma pátrio começa a me empolar toda, mas resisto bravamente. Ele prossegue, no entanto: "E aí, quer converçar?" Eu não queria, preferi ler um livro, acompanhado de uma dose cavalar de anti-alérgico, sorvido aos goles.

Passo por uma loja que avisa: "fexado para almoso", mas sempre atravesso a rua e dou uma de distraída, olhando pra outro lado, envergonhada com aquilo.

Costumo comer numa lanchonete onde servem "fest food", mas nunca me atrevi a pedir, prefiro um prosaico "x-salada", e o rapaz que gentilmente me atende sempre me pergunta se vou querer meu "x-salada" com queijo ou sem queijo.

Num país de semi-analfabetos eu frequentemente fico confusa, mas aparentemente as outras pessoas parecem não dar pela coisa. Passei hoje em frente a uma barraca onde vendiam "cocô gelado" (eca!!!) e o rapaz me oferece, solícito: "Vai um aí, moça?" Declino educadamente: "Hoje não, obrigada." Por via das dúvidas, troco disfarçadamente de calçada.

(escrito por Zailda Mendes)

Que os diabos levem as mocinhas das novelas

Eu não assisto novela (graças a Deus!) mas já andei acompanhando muitas, antes de desistir de gostar delas.

O que me chamava a atenção era a luta entre os vilões e os mocinhos, uma luta desigual, que prendia nossa atenção do começo ao fim do desenrolar (?) da trama.

A mocinha é sempre aquele ser suspirante e soluçante que se debate em seus eternos conflitos morais, que não sabe se assume a paixão pelo mocinho ou se cuida da tia doente.

Sua insegurança faz com que veja todos os defeitos no mocinho (um mulherengo, irresponsável, etc) e não enxergue as notórias deturpações de caráter da maligna rival, a vilã.

O que diferencia a vilã da mocinha é que a vilã sabe o que quer e luta com todas as armas, enquanto a mocinha chora e dá ouvidos a todo tipo de fofoca absurda, ela se atira nos braços do mocinho, quase esfregando sua sensualidade em sua cara. Frequentemente ele é seduzido por ela, engravidando-a e ela se aproveita pra transformar sua vida num inferno.

A mocinha, ser sem forças morais nem físicas, faz tres coisas, fundamentalmente: 1) chora; 2) desmaia; 3) sucumbe às chantagens sentimentais da família. A sorte é que tem sempre uma amiga, muito mais esperta que ela, que a impulsiona pra brigar com a rival.

O mocinho, outro fraco de caráter, acaba escolhendo a mocinha por ser mais prático. Não é suficientemente seguro de si pra encarar uma mulher muito mais esperta que ele, e enquanto sua queridinha cai pela milésima vez nas armadilhas da inimiga (uma burra, essa mocinha!) ele se debate entre a fragilidade de sua amada e a exuberância da vilã.

Pra mim que a vilã é muito mais interessante, mulher com seus conflitos internos resolvidos, em paz com sua sexualidade, que batalha pelo que quer. A mocinha é toda dúvidas, toda insegurança, toda ingenuidade. Ingenuidade tanta que beira à burrice, que chega a dar raiva.

Protesto, pra mim que pelo menos uma vez o mais forte tinha que vencer, pra mim é um preconceito bobo o "bem" vencer sempre. Por que só os fracos podem chegar lá? Sem luta, sem mérito, sem qualidades morais pra isso?

Ah, eu levanto minha bandeira em defesa dos fortes e opressores. Os fracos e oprimidos que se danem, que aprendam a lutar! Chega de heroínas fracas, chorosas, crédulas! Que elas sejam daqui pra frente inteligentes, sensuais, decididas, que saibam o que querem, pelo amor de Deus! Que parem de sucumbir às armações das vilãs e que não se deixem levar pelas fofocas das mal-amadas!

Que sejam mais parecidas com as mulheres reais, as batalhadoras, que tenhamos um mínimo de pontos comuns, algo que nos identifique com elas, que as faça mais reais e próximas de nós.

(escrito por Zailda Mendes)

Tolerância zero

Bem que a gente tenta manter a calma e ser legal mas tem hora que só apelando pra ignorância mesmo.

Eu sempre acordo bem, tomo um banho revigorante e vou pro trabalho. No caminho vou sentindo o sol e a brisa na pele, pensando nos compromissos que tenho a cumprir e nos desafios que terei que enfrentar - e vencer. Sigo sorridente e aberta para as emoções do novo dia.

Aí entro na padaria, bar, boteco, ou o que o valha e peço um café, um simples e bom café. E nesse momento meu bom humor começa a se desvanecer.

Ora, o que é um café? Todos sabem - ou deveriam saber - que café é uma mistura de pó de café, água e às vezes açúcar. Vivo no Brasil (supostamente a terra do café) e por isso imagino em minha santa ingenuidade que se estou num estabelecimento que serve café, o balconista - mesmo que não tenha uma cara lá muito inteligente - deve saber o que é um café.

Parto do pressuposto que se ele atende centenas de pessoas por dia pedindo café deve saber do que se trata, e é aí que eu caio do cavalo e meu humor matinal sofre um abalo considerável, porque não tenho muita paciência pra explicar coisas que pra mim parecem óbvias.

Chego e assim que o balconista se aproxima peço:

- Um café, por favor.

Ainda não descobri que insondável mistério se esconde por trás dessa tão singela e simples frase, porque pra mim seu sentido parece claro como água - ou como café.

O fato é que o balconista, com aquele ar de indiferença que lhes é peculiar, bota à minha frente um copo de café com leite.

Olho enojada e minha primeira reação é fixar aquela mistura repugnante como se eu tivesse super-poderes para desintegrá-la tal qual nos filmes de ficção. O balconista às vezes nota minha tentativa vã de eliminar a medonha mistura, noutras tenho que chamá-lo de volta:

- Pedi um café.

Ele me olha como se eu falasse um dialeto só conhecido por monges tibetanos ou como se eu fosse uma lunática que acabara de descer de um OVNI ou algo assim. Portanto explico, apontando pra horrenda mistura onde já nadam algumas natas:

- Isso não é café.

- É café com leite - me explica ele, como se falasse com um retardado mental.

- Eu pedi leite? Se eu quisesse leite pediria café com leite. Acontece que eu só pedi café.

Outras vezes, antes mesmo de servir, começa o festival de perguntas idiotas:

- Um café, por favor.

- Puro?

- Não, com açúcar.
- Não, com pinga.
- Não, um bem pecador. Pureza não me atrai, prefiro devassidão.

Às vezes mudam a pergunta e fica pior:

- Um café, por favor.

- Preto?

- De que cores vocês têm?
- Não, rosa choque com listras douradas.
- Não, louro de olhos verdes.

Perguntas desse tipo chateiam porque se eu pedi um café é exatamente o que eu quero. É claro que é preto, mesmo porque não conheço café de outra cor; claro que é puro, se eu quisesse misturado com farinha, ovos, ou seja lá o que for, pediria dessa forma. Esse tipo de pergunta faz com que haja cada vez mais e mais seguidores do Saraiva, saudoso personagem do programa Zorra Total.

A cada dia ele ganha novos seguidores, como me conta uma aluna. Ela viajava a uma cidade, cujo nome não conseguiria me lembrar agora nem que disso dependesse minha sanidade mental, e desceu numa dessas paradas à beira da estrada. Entra numa lanchonete e pede à garçonete:

- Um pão de queijo, por favor.

Essa, com uma desfaçatez de que só os pobres de espírito são capazes, pergunta:

- Do normal?

Ora, se há mais de um tipo à venda ela teria (pelo menos teoricamente) obrigação de explicar. Mas alguns atendentes têm essa mania de nos sonegar informação, na certa para nos obrigar a fazer perguntas que seriam absolutamente dispensáveis, e que podem nos expor a uma situação ridícula ou de ignorância absoluta. Como se alguém tivesse a obrigação de saber que variedades de pão de queijo são vendidas na espelunca onde ela trabalha.

Assim também lhe pareceu à minha aluna, que demonstra sua irritação na resposta atravessada:

- Não, quero um daquele que bate palmas.

(por Zailda Mendes)

Sou sim, e daí?

Alguns gostam de apontar nos outros qualidades e defeitos, mas como eu já disse aqui, se algo é qualidade ou defeito, depende do ponto de vista e da forma como usamos isso. Prefiro chamar de "características".

Cada um tem suas características e também o livre arbítrio de escolher quais deve manter em estado bruto ou tentar lapidar um pouco. Isso fica a gosto do PORTADOR da dita cuja, e não dos linguarudos de plantão, que adoram meter o bedelho nas características alheias.

Algumas das minhas eu estou careca de saber que incomodam certas pessoas, mas e daí? Os incomodados que se mudem! Ah, que eu sou teimosa, sou sim, de carteirinha, grande novidade!

Chata? Não é marcante, mas quando invoco de ser eu sou até às raias da loucura. Nessas horas em que opto por essa postura, costumo martirizar mesmo, não estou nem aí se isso enche o saco.

Conheço uma porrada de gente chata, desde aquele clássico tipo que você cumprimenta: oi, como vai? e o filho da mãe começa a explicar tudo, tintim por tintim (como se você estivesse interessada) até os chatos que tem chatices específicas: tem aquele que fala bem de perto, te segurando pra você não escapar; aquele que você precisa de um guarda-chuva pra ouvir senão sai toda babada; aquele que te pára na rua pra dizer: nossa, como você engordou, envelheceu, está acabada ou seja lá o raio que o parta... E eu aturo com a santa paciência digna de um monge tibetano que Deus me deu.

Perfeccionista eu sou mesmo, e quer saber? Vou morrer sendo, exigo mesmo, cobro mesmo, de mim e dos outros. E ai daquele que vai fazer algo e me aparece com um servicinho de merda, daquele feito nas coxas... vai escutar, ah se vai!

Dizem que eu sou metida. Isso eu não sei. Metida onde? Nos problemas alheios? Não sou nem um pouco. A menos que me contem e me peçam palpite (aí eu dou sim, e de graça), eles nem me interessam. Ah, ta. Metida não é intrometida, é ter o nariz empinado, se achar! Olha, quando Deus estava distribuindo modéstia para os mortais eu confesso que nem entrei na fila. Modesta não sou mesmo, esse defeito eu não tenho. Não tem nada mais pobre do que ralar que nem uma mula pra conseguir alguma coisa, batalhar dia e noite e quando alguém comenta o "feito", dizer: ah, não foi nada não, imagina... coisinha de nada... Se alguém espera me ouvir algum dia dizer uma bobagem dessa, pode ir tirando o cavalinho da chuva porque não digo mesmo. Acho que quem faz isso está é querendo confete. Se eu conseguir algo importante vou me sentir contente e incentivar os outros a correrem atrás também.

Olha, eu sou isso aí. Sou tudo isso sim, sem tirar nem por. Se for pecado, podem ficar despreocupados que acerto tudinho lá em cima com o Criador quando chegar a hora. Antes não. E quer saber? Teimosa, chata, perfeccionista, metida, e muito mais. Sou sim, e daí???

(escrito por Zailda Mendes)

O que se esconde por trás dos contos infantis

Vejo muitos pais reclamando da televisão, dizem que há muita violência nos programas infantis de modo geral e que isso influencia negativamente seus filhos. Não entro no mérito da questão, deixo a discussão pros especialistas da área, mas pertenço a uma geração que também sofreu com a violência (implícita) nas famosas histórias infantis. Senão, vejamos:

Chapéuzinho Vermelho - não é só o caso da violência, mas também um caso clássico de sexo implícito. Eu disse implícito? Porca miséria, a menina é seguida pelo Lobo, que tem todas as mumunhas e o papo de um autêntico tarado (pra ser moderninha, um pedófilo), olha que chique, a gente ouvia apavorada a história de um lobo pedófilo que depois comia a vovózinha. Que coisa! E depois ainda chegava um lenhador não se sabe de onde e ABRIA A BARRIGA DO LOBO e a diaba da avó (uma bruxa, por certo) saía de lá vivinha da silva! E a gente era obrigada a ouvir esse terror todo ANTES DE DORMIR. E quem vai lá conseguir pegar no sono depois de uma carnificina destas?

Rapunzel - beleza de exemplo, dava umas idéias pra lá de tortas, e isso logo antes de dormir! Se a Rapuzel que estava numa torre danada de alta deu seus pulos (deixou crescer um cabelão danado) pra que o namorado pulasse a janela e passasse a noite ali com ela, a gente nem precisava ser tão criativa, já que nossa janela possivelmente era bem mais baixinha!

Joãozinho e Maria - arre, que coisa mais descabida, largar duas pobres crianças num bosque, ainda por cima o irmãozinho era retardado, jogando migalhas de pão pra marcar o caminho! E depois a bruxa os prende pra engordá-los, a Maria, menina boazinha que só ela, me empurra a pobre da velha em um caldeirão de água fervente! Uma cena destas antes de dormir deve causar cada trauma que nem o Freud explica!

Sereiazinha - já começa mal, a coitada tem que cortar a língua (deus me livre!) em troca de um belo par de pernas pra encantar um príncipe (e tome fetichismo!) mas como a jogada dá errado, ela se atira no mar! Suicídio por amor tá liberado pra criança de (digamos) seis anos? E depois iam dormir, achando que a gente estava mais calminho agora, que ia pegar no sono logo. Não admirava se a cama amanhecesse toda molhada! Vai botar medo assim em outro!

Branca de Neve - essa era uma pervertida, dormia com sete anões. E tinham que ser anões, que que era isso, algum tipo de tara? E logo sete? Devia ser uma suruba daquelas, à noite voava pena pra tudo que era lado, pois não era? Olha só que pouca-vergonha ensinavam, e a gente ainda ia dormir com isso na cabeça, imagens de um bacanal na floresta em que uma princesa tarada dormia com 7 anões. Claro, depois dava uma de sonsa com o coitado do (corno) do príncipe, pra ele era só um beijinho casto de nada... garanto que ia fingir que era virgem...

E apareceram uns desenhos pra lá de entortantes também pra nossa nem suspeitada sexualidade. O Batman e o Robin eram um casal? O Superboy era bicha? Perguntas que rodavam em nossa cabeça e nos torturavam numa incerteza capaz de levar uma pessoa à loucura...

E os Smurfs? Imagina: o Gargamel toma um "chá de cogumelo" e depois começa a ver uns homenzinhos azuis que ninguém mais vê. Claro, se fosse LSD ninguém mais ia ver também...

Agora pensa comigo: você acha realmente que a influência da TV hoje pode ser pior que esse massacre que as gerações anteriores sofreram? Será que esses inocentes desenhos têm mesmo o poder de entortar algo que tenha sido direito até agora?

Quanto a esse emburrecimento paulatino que vemos em programas que têm uma mulher bonita e muito burra falando asneiras e jogando o cabelo de um lado pra outro nem falo nada. Que são bonitas todos concordamos, mas quem foi a anta que permitiu que elas falassem? E ainda por cima DURANTE O PROGRAMA? Erro imperdoável, tinham que tirar o microfone, nossos ouvidos agradeceriam e nossas crianças não sofreriam essa "violência".

Agora já imaginou, minha amiga, se tua filha um dia chega pra você e diz: "mãe, quando eu crescer quero ser igualzinha à Carla Perez" que é que você vai fazer? Já pensou que desgosto? A gente faz tudo por uma filha e depois dá nisso, ter que ouvir uma coisa dessas... Quando a coisa chega nesse ponto, sinto muito mas nem psiquiatra dá mais jeito! Caso grave, de internação, aí quem sabe?

(escrito por Zailda Mendes)

Introdução aos mistérios da culinária

Entro na minúscula cozinha disposta a aventurar-me pelos intrincados e obscuros caminhos da culinária. O estômago encosta nas costelas, rangendo de fome. Nada pronto na geladeira. Abro o armário e escolho uma dessas repugnantes sopas instantâneas, tipo Minojo. No pacote dizem que é rápido e fácil de preparar. Leio atentamente as instruções do pacote, releio e vou executando. Dois copos de água fria numa panela, depois despejo o conteúdo do envelope na água da panela.

Faço exatamente o que reza a bula da droga instantânea, mas dentro da panela cai junto com o macarrão em placa um pacotinho prateado, que lembro então, contém o tempero pra sopa. A água está quase fervendo, o saquinho encostado na panela começa a derreter. Pego um garfo e tento pescá-lo de dentro da panela. O vapor da água borbulhante me queima o dedo.

- Merda! - praguejo.

Depois de alguns minutos de arriscadas manobras com o garfo, evitando o vapor quente, finalmente resgato o envelope e num golpe atiro-o pra cima... ele cai diretamente no peito do meu pé.

- Bosta! - me irrito.

Com um chute jogo-o longe, cai em cima da pia e, derretendo, começa a espalhar seu conteúdo nojento na pia limpinha. Com um pano de prato, cuidadosamente, evitando novos acidentes, pego-o e, antes que esboce alguma reação contrária, jogo-o dentro do baldinho de lixo da pia, tampando-o em seguida... nunca se sabe!

Enquanto estou nessas manobras arriscadas, a água da panela vai secando, então quando me viro, satisfeita por ter me livrado do perigoso pacotinho, dou com uma fumaça branca que sobe da panela. Rápidamente encho um copo dágua e jogo na panela, que emite um ruído forte e dela sobe duas vezes mais fumaça que antes. Assustada, tiro a panela do fogo, provocando alguns respingos de água no braço. Minha reação instantânea é jogar a panela com minojo queimado e água fervente na pia.

Depois contemplo, consternada, a bagunça na pia e na cozinha, que mais parece o cenário de uma guerra que propriamente uma cozinha. Panos de prato, garfos, macarrão queimado.
Infelizmente, nada comestí­vel.

- Desisto, que merda! - vocifero.

Retiro-me da cozinha derrotada, faminta, disposta a comprar um livro de culinária no dia seguinte.

(Escrito por Zailda Mendes)

Bagunceira assumida

Bagunceira compulsiva, nem me dou conta da desarrumação à minha volta. Sempre procurando um livro que sumiu, um sapato desaparecido, quem sabe sequestrado por alienígenas?

Pior que venho de uma família de gente organizada, tudo certinho no seu lugar. Além das coisas, a vida arrumadinha também, no domingo a missa, sábado passear, almoço e janta na hora certa. Casavam, tinham filhos, faziam bodas de prata, ouro e não sei do que mais... o bom é que sempre tinha festa...


Me vejo eu hoje às voltas com minha desorganização, a mesa de trabalho uma zona, a cama (que não arrumo) cheia de roupas, toalhas, livros, e o que que esse sapato está fazendo aqui??????


Pior que acabei criando outra geração de bagunceiros e uma organizada compulsiva, que odeia baderna. A convivência é um problema, me torturo em culpas cada vez que a vejo marchando em minha direção com olhar de quem vai um dia salvar o mundo de uma peste terrível ou de uma lei desarrazoada (é advogada, a pobre alma) com um relógio que esqueci em cima da TV, uma agenda displicentemente abandonada em cima do sofá ou até uma inofensiva caneta caída no chão.


Sempre estou com a cabeça em outro lugar, em coisas mais importantes: o trabalho, o horário, o ônibus... Outras mais importantes ainda: o futuro, o amor, a pressa de ser feliz.... Coisas de suma importância: Ele vai ligar? Vai mandar sms? Estará online?


Prioridades podem ser mudadas, mas sinceramente não me vejo substituindo os torpedos românticos pela vassoura, os beijos pelos livros organizadinhos, os papos na internet por faxinas semanais...


O jeito é ir levando, um leite derramado aqui, um pente abandonado na pia do banheiro ali, e assim vou vivendo, tentando sobreviver a tantos objetos que teimam em não voltar a seus lugares sozinhos, insistem em se espalhar em todas as direções à minha volta como se tivessem vida própria, desafiando as leis da física, as leis do bom senso, as leis da felicidade eterna enquanto dure a arrumação do lar.


(escrito por Zailda Mendes)

Tipo assim, mil coisas, tá ligado?

Você não odeia conversar com adolescente e ouvir aquelas frases sem o menor sentido, ou melhor, que vem num dialeto tão ininteligível quanto digamos, idioma de esquimó? E de "tipo assim" em "tipo assim" tentamos entender o que anda pelas cabecinhas dos jovens.

Convivo com muitos adolescentes, sou professora, e acho que aos poucos vou pegando o sentido da coisa. Viajando na maionese a princípio, mas pegando fácil. Pra ajudar os que também sofrem com esse conflito oral de gerações, algumas dicas preciosas sobre algumas expressões frequentes, no mais puro e singelo exemplo de "dialeto adolescente":

Qual é, tá me tirando? - expressão das mais perigosas, significa que alguma coisa impensada que você falou conseguiu atravessar a barreira de chumbo da apatia juvenil e surtiu efeito - contrário, claro. Quer dizer que você tocou um nervo sensível e provavelmente terá que arcar com as consequências de seu ato quase criminoso. Recomendo calma e uma semana sem sermões pra ver se as coisas se acalmam nesse período.

mil coisas - apesar da abundância numérica, quer dizer absolutamente nada. Não se preocupe com essa frase e tente ir mais a fundo na questão. Em outras palavras, equivale ao nosso "sem nada a declarar".

tipo assim - significa apenas que o adolescente tem algo a dizer e essa expressão serve apenas pra que você fique atento pra não perder nem uma palavra dessa ocasião memorável - e rara!

tá ligado - algo como "entendeu agora, seu babaca?", mas não se ofenda, pode ser que um dia você venha realmente a entender, aí então poderá se ofender.

viajou na maionese - significa que você entendeu tudo errado, ou que disse alguma besteira que o adolescente não conseguiu entender (novidade!!!).

Outras expressões usadas pelos jovens serão oportunamente investigadas, entretanto não resta muito material já que o vocabulário juvenil é assustadoramente limitado, cheio de expressões e palavras puramente retóricas que não querem dizer absolutamente nada.

Qualquer dica que alguém tenha aí sobre esse assunto será muito oportuna, nessa nossa eterna luta pra tentar estabelecer algo que pelo menos de longe se assemelhe a um diálogo com essa geração que tomará nosso lugar em alguns anos. E isso me faz pensar em como será nosso futuro. Tipo assim: mil coisas, tá ligado?

(escrito por Zailda Mendes)

Como passar um dia agradável em frente à TV, se você é mulher

Um feriado prolongado me pegou de surpresa outro dia com uma tarde inteirinha sem nada pra fazer. Fato raro, imaginei logo algo de interessante pra passar o tempo e liguei a "máquina de fazer doido", como bem já definia a tia Zulmira, do Stanislaw Ponte Preta.

Dei de cara com um programa dirigido provavelmente a mulheres masoquistas. Horrorizada assisti durante quase meia hora às mais bárbaras e desumanas torturas a que uma mulher pode se submeter pra ficar em forma. Gente, se Hitler tivesse televisão com certeza os judeus teriam sofrido muito mais em suas mãos. Corri pra mudar logo de canal tão logo a visão aterrorizante de mulheres gordas e cheias de celulite se acabando de tomar choques em tudo quanto era lugar tornou-se insuportável.


O programa seguinte falava sobre culinária e isso aliado a todas as dietas e exercícios torturantes que eu assistira boquiaberta me fez abrir ainda mais a boca e buscar algo pra comer na minha cozinha. Com sentimento de culpa que só as mulheres poderão entender, o mesmo que nos aflige cada vez que comemos um bombom escondido (como se comer escondido não engordasse...) acompanhei atenta às mais loucas misturas de ingredientes tão estranhos quanto os que faziam parte das receitas mirabolantes dos alquimistas de outrora. Desanimada com minha santa ignorância troquei novamente de canal.


Uma mulher calma e bonita dirigia o próximo programa, mas o que é bom dura pouco, logo descobri que o tal programa era a mais deslavada baixaria. Faziam aquilo que antigamente chamávamos de "lavar roupa suja" ali, bem debaixo do meu nariz. Mães espinafravam os filhos, maridos diziam com todas as letras porque a amante era bem melhor que a mulher, um verdadeiro circo de horrores. E eu fiquei me perguntando o que leva um ser humano a se expor assim na TV.


Já deprimida, continuei passando os canais até que encontrei um repórter que contava os capítulos de novelas que nunca vi. Não entendi nada. Não sei se meu QI emperrou, mas aquilo tudo que ele contava me parecia uma barafunda confusa de nomes e situações mirabolantes que jamais em tempo algum poderiam acontecer. Se Shakespeare tivesse TV teria imaginado algo bem menos prosaico que veneno pra Romeu e Julieta... Quem sabe? Talvez ele sofresse de falta de imaginação...


Dei à TV todas as chances que minha paciência permitiu mas no final das contas descobri uma maneira ótima de passar uma agradável tarde em frente a ela: botei os pés na poltrona, coloquei um CD pra tocar e simplesmente deixei-a desligada. Tive uma tarde agradabilíssima. Tente você também, qualquer dia destes.


(escrito por Zailda Mendes)

Fumo sim, e daí, vai encarar?

Claro que eu e todos os outros fumantes do mundo estamos absolutamente conscientes dos males que causa o tabagismo, que é um vício horroroso que acaba com os pulmões e empesteia o ar e coisa-e-tal... Mas pô, caramba, será que a gente não tem o direito de dar uma pitadinha sossegada que lá vem um CHATO DE GALOCHA pra ficar enchendo o saco?

Chato - Nossa, você fuma...


Eu penso - (Claro que não, você está tendo ilusão de ótica.)


A gente dá uma resposta qualquer, um sorriso amarelo (bem amarelo já que a gente fuma), dá uns passos pra mais adiante pra ver se o "carrapato" se toca.


Chato - Você sabia que o cigarro faz mal à saúde?


Eu penso - (Não, o Ministério da Saúde só avisou pra você, seu babaca.)


Fico sem-graça ante tanto lugar-comum, mas a besta segue insistindo:


Chato - O cigarro mata aos poucos.


Eu penso - (Não tem problema, não estou com pressa de morrer.)


Chato - Cigarro dá câncer.


Eu penso - (Anticoncepcional dá câncer, fígado de boi dá câncer, buraco na camada de ozônio dá câncer - será que burrice também dá câncer?)


Chato - Quem fuma está queimando dinheiro.


Eu penso - (E o dinheiro é de quem? Ahn? De quem?)


Aí eu mordo a língua mas não adianta:


- Sabia que descobriram que quem FICA PERTO DE QUEM FUMA, ENCHENDO O SACO E INALANDO FUMAÇA é considerado FUMANTE PASSIVO e há uma porcentagem de incidência de câncer entre eles quase tão alta quanto daqueles que QUEREM FUMAR, GOSTAM, PAGAM PELO PRÓPRIO VÍCIO e além disso têm o DIREITO DE NÃO FICAR OUVINDO COISAS IDIOTAS DOS NÃO-FUMANTES?


Desculpe a grosseria aí, colega, mas não dá pra agüentar. Quem fuma está careca de saber de tudo isso, graças aos CHATOS DE PLANTÃO, que insistem em catequizar os fumantes. Acho que fumar ou não fumar é decisão de cada um e o patrulhamento deixa o fumante irritado; quando o fumante fica irritado dá uma vontade danada de fumar um cigarrinho!


(por Zailda Mendes)

19 de jan de 2008

Uma coisa que eu detesto



Se tem uma coisa que eu detesto é gente fofoqueira. Nossa, eu fico louca da vida quando a pessoa me chama pro canto e diz:


- Você não sabe da maior...


E aí lá vem lavação de roupa suja (dos outros) em praça pública. É um tal de Sicrano, que tinha um caso com Beltrana. Aquela cujo marido fugiu com a filha do Fulano, que foi pego em flagrante com outro homem no dia do enterro da dona Sicrana, que estava com AIDS, coitada. Pegou do marido que catava todas, mas não tinha grana pra pagar o caminhão, o banco tomou...


Nossa, fica mais confuso que novela global! Eu me sinto uma ET, vivendo em Marte quando alguém me vem com um papo assim. Impossível não perder o fio da meada, macacos me mordam se dali a 5 minutos eu me lembrar de pelo menos 1 por cento dessa embrulhada toda que é a vida dos outros.


Olha, mal e mal eu administro a minha, e olha que tem hora que dá vontade de pedir um help pros anjos e santos. Entender, tem hora que não entendo nem a mim mesma, então como é que vou julgar e condenar pessoas que eu nem conheço direito?


Como é que alguém tem a coragem de espalhar notícias de origem duvidosa, que podem prejudicar pessoas que às vezes estão tão por fora do assunto quanto eu? E põe "por fora" nisso!


Nunca me esqueço da sábia historinha que serve bem pra ilustrar o mal que os fofoqueiros podem causar, na maioria das vezes irreversível. Conta-se que a mulher inventara uma história e saíra espalhando. Questionada pelo sábio ela arrependeu-se e perguntou o que poderia fazer para remediar o mal que fizera.


O sábio convidou-a a subir com ele a mais alta das montanhas da região, e chegando ao pico deu-lhe um monte de papel picado e pediu-lhe que o jogasse ao vento. Rapidamente os pedacinhos de papel se espalharam por todo o vale.


- Agora desça e pegue um por um.


- Mas isso é impossível! - queixou-se a mulher.


- Pois então - explicou o sábio - assim é a fofoca. Uma vez espalhada uma notícia é tão difícil desmentí-la e assim reparar o mal feito quanto recolher esses pedaços de papel.


Conta-se que a partir daí a mulher nunca mais espalhou suas fofocas. Infelizmente acho que esse sábio já morreu faz tempo, porque conheço muita gente que está precisando urgentemente de uma consultinha com ele!


(por Zailda Mendes)

13 de jan de 2008

Essa mania de estrelas

A coisa que já começou o ano me engasgando foi o meu timão indo pra segundona. E aturar as piadinhas de final de ano: "natal esse ano cai na terça, corintiano comemora na segunda". Ah, ah, ah, ah, tô morrendo de rir...
E não é que o que ninguém achava que ia acontecer nunquinha aconteceu MESMO? Mas é óbvio pra quem se deu ao trabalho de assistir aos jogos que isso ia acontecer mesmo. Discordo plenamente de "uns e outros" que aderindo à turma do besteirol (daqueles que só aparecem na TV pra falar bobagem) quando dizem que "só se ganha jogando um bom futebol". Ora, desde que me entendo por gente e comecei a ver jogo de futebol (na copa de 70) que me ensinaram que no futebol o que ganha jogo é gol. Funciona de forma muito simples e se isso for muito complicado pra certos dirigentes e treinadores, funciona assim: a cada jogo quem faz mais gol ganha, quanto mais jogos ganha o time, mais pontos acumula, vai subindo na classificação e no final quem tiver mais pontos ganha a competição.
Simples pra nós mas não tanto pra eles lá, que cuidam disso. E estava na cara de quem quisesse ver que o time estava indo pro buraco.
Se culpas há, devem ser distribuídas: para aqueles que contrataram estrelas que não desceram de seu pedestal pra jogar; para aqueles que não tiveram coragem de botá-las no banco mesmo quando não renderam nada; para aqueles que se preocuparam mais com sua própria carreira que pelo desempenho de seu (nosso) time; para aqueles que por pura incompetência viram o barco afundar e olharam pro outro lado.
Espero que para 2008 aprendar a honrar a camisa que vestem, a deixar de dizer bobagens na TV pra justificar suas asneiras e principalmente que comecem a jogar, seja futebol bonito, bom futebol, ou simplesmente um feijão-com-arroz, mas por favor: TRAGAM UMA MEDALHA!

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