3 de fev de 2012

Identidade

dia nacional da fotografiaCoisa chata é tirar foto pra carteira de identidade. De acordo com o Stanislaw, quando a gente tira foto fica puto quando não sai parecida com a gente e mais puto ainda quando sai. Por mim eu nem ficava puta se saísse a cara – digamos – da Bruna Lombardi, mas a cara da Bruna como eu me lembro dela, vai saber como está a cara dela agora. Se for pra ficar a cara dela como é agora prefiro então que se pareça com a minha, que pelo menos eu sei como está.

Mas puta da vida eu já estava, verdade seja dita. Com uma tia que já tinha lá pela oitava via da carteira de identidade porque desde que tirou a primeira mais as perdeu que as usou, eu me orgulhava de ainda ter a original – primeira e única – e até que bem conservada. Mas vai que alguém – com tempo sobrando porque faltavam leis de reforma da Educação, da Previdência ou do raio que o parta pra assinar – decidiu sabe-se lá por que cargas dágua que a carteira que a Secretaria da Segurança Pública fez por bem me conceder há décadas  e que foi cuidada e conservada por sua feliz possuidora - que ora vos fala - não valia mais, e lá fui eu tirar as malditas fotos.

Com aquele bom humor que Deus-me-livre entro na primeira porta onde se lê “foto 3X4 na hora”. O lugar mais parece um ninho de rato, que eu nunca vi mas imagino como deve ser, porque era como minha santa e querida tia – que Deus a tenha em Sua infinita glória – chamava meu quarto de adolescente, lá nos idos de mil novecentos e antigamente.

Com olhar de poucos amigos e sorriso amarelo de tabaco e dentes faltando, me atende o fotógrafo ajeitando o óculos de pernas bambas e lentes míopes. Me manda sentar num banquinho pra elefante de circo subir e fazer malabarismo, acende mil watts na minha cara, vai pra detrás da câmera e lá fica alguns minutos até eu começar a achar que caiu no sono e cogitar a hipótese de dar um chute numa daquelas luminárias pra ver se acordava o belo, quando ele levanta a cabeça e pergunta:

- Vai com o cabelo assim mesmo?

A frase antiga e batida que tem o cheiro de todos os finais de semana desde a infância, repetida incontáveis vezes por amigas, colegas, parentes, candidatos a ex-namorados e empregadas enxeridas é a tal gota que faz transbordar o cálice de cicuta.

- Por que? Por acaso você teria aí uma peruca pra me emprestar?

Ele não percebe o sorriso de desforra e nem parece sentir a alfinetada.

- Não – responde simplesmente, como se a pergunta fosse pra ser respondida, tão óbvia a resposta.

- Então vai com esse cabelo mesmo, que é o único que eu tenho – replico, malcriada desde a mais tenra infância.

- Não é por nada não, mas é que seu cabelo está meio arrepiado.

Já usaram muitas palavras para descrever meu cabelo, mas até onde a minha memória alcança, “arrepiado” foi a primeira vez.

- Então vai “arrepiado” mesmo.

Ele faz uma cara de “não diga que eu não avisei” e depois de rodar feito um peru em volta da câmera bate a foto.

Como de costume e já esperado as fotos saem piores que o modelo (sem falsa modéstia), e essa é uma injustiça que nos fazem aos reles mortais: se pagam uma fortuna pra uma gazela loura, magra e linda que passou 6 horas no salão de beleza fazendo tudo quanto é experiência química no cabelo para tirar sua foto, por que nos tiram 3 fotos mixas, que saem a cara da nossa avó defunta dentro do caixão – sem as flores – e ainda temos que pagar?

Hipocrisia não é o meu forte, mas também não é prerrogativa de político, então digo que ficaram ótimas, e assim que meu dinheiro muda de dono ele o põe numa gaveta e resmunga um pouco convincente “ficaram mesmo”, deixando claro pra mim pelo menos que nem todos nascem para a vida pública.

Boto a cara da vó de cabelo arrepiado num canto escondido da bolsa e vou cuidar da vida, muita fila ainda pra encarar, já que esse documento aqui que a Secretaria me deu quase meio século atrás e que conservei com carinho e devoção o ministro não quer mais.

Zailda Coirano

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