8 de out de 2008

Chatos de galocha

Diga-me aí, caro leitor, o que é que faz uma pessoa no metrô ou no ônibus puxar papo com quem está com um livro aberto ou com um fone de ouvido? É sabido que metrô e ônibus são coisas chatas, a gente fica naquele empurra-empurra, ou sentado sem querer encarar ninguém... Pra facilitar a viagem, quem é prevenido leva um livro, uma revista ou jornal e se esconde por trás dele. Se esconde PARA NÃO SER INCOMODADO.

Quem não está a fim de ler naquele sacolejo todo e quer poupar as vistas tem hoje a opção de detonar o ouvido. Pois boto lá meu fone de ouvido com o som no máximo e estou lá bem tranquila curtindo meu sonzinho, distante da poluição sonora ambiente, não dá nem 5 minutos e o filho de chocadeira que está sentado do meu lado começa a mexer os lábios - e está olhando pra mim!

Fico ali uns segundos tentando fazer leitura labial, sorrio e aceno com a cabeça. Mas qual! Ele (ou ela, mais provável) quer CONVERSAR! E tudo girando em torno da sua pessoa, que pra mim não interessa nem um pouco. Aí eu tiro o fone de ouvido, respondo que "é mesmo", ponho de novo o fone, olho pra fora pra ver se a pessoa se toca. Que nada, está mesmo a fim de me atazanar. Me cutuca o cotovelo fazendo meu sangue fluir todo para as orelhas, que ficam que nem pimentão quando estou com raiva.

Mas a pessoa não me conhece e não sabe o risco que está correndo. E olhe que sou do tipo "fala mas não encosta", ou como se diz lá no interior "fala mas não me rela". Desconhecido falar comigo já é quase uma afronta, me cutucar então já é chamar pra briga. Olho para o personagem de cima a baixo e desvencilho o braço dos dedos grudentos do incômodo companheiro de viagem e faço cara de poucos amigos. Conto até mil e pergunto o-que-foi-que-você-disse em tom nada cordial.

A "pessoa" não se toca e toda animada começa a comentar um monte de coisas que não têm interesse nenhum pra mim, tipo quanto tempo teve que esperar na fila, como esses ônibus andam cheios hoje em dia e baboseiras do gênero "não tenho nada pra falar mas não consigo manter a boca fechada".

Faço "han-han" e soco o fone com força no ouvido, virando-me definitivamente em direção oposta ao meu candidato a interlocutor. Em vez de me concentrar na música, dedico os próximos 5 minutos de meus pensamentos à santa mãezinha do chato, a pobre que não tem quase nada com isso, a não ser não ter dito a ele quando pequeno que é falta de educação incomodar estranhos que visivelmente não querem ser incomodados.

Mas como o desconfiômetro do personagem (quem me dera!) fictício dessa "novela" parece ter vindo com defeito de fábrica, não é que ele puxa de novo meu braço? Ah, desaforo dos desaforos! Eu, irritada, solto o braço num safanão e digo, mal-criada:

- Ô moço, vai procurar sua turma e me deixa em paz.

Mais uns minutos de paz ele diz alguma coisa que não ouço de jeito nenhum e se levanta, toca o sinal e desce. Acompanho sua saída fuzilando suas costas com meu olhar mortal número 4 e quase mostro a língua quando ele olha para trás ao descer.

Suspiro aliviada, ao meu lado senta-se uma senhora gorda. Continuo irritada, rezando mentalmente e recitando um mantra pra me acalmar quando a senhora gorda me cutuca e diz, tão alto que nem preciso tirar o fone de ouvido:

- Nossa, mas como hoje está abafado, não é?

Pronto, lá se vão todas as minhas boas intenções para com o próximo...

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4 comentários:

  1. Infelizmente, somos assim mesmo: eu levo um livro comigo sempre - não suporto fone de ouvido (risos), e vem cá: conversar com os outros é sempre um pergio, e, como falo pouco com os outros, não ligo, finjo que sou surdo ou nem "dou trela" como se diz em Minas...
    Mas não deveria ser assim...
    Uma ótima quinta para você! ;-)
    UM ABRAÇÃO E UM BEIJÃO!! :-D

    De seu amigo,
    Enos

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  2. Zailda, adorei o mensagem que deixou no livro do ódio, muito dez mesmo!
    Parabéns pela persepção referente aos indíviduos!

    Ass: Wanderson Monford Vidygal.

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  3. Fala mais nu mi rela, porra! huhaHhauhaHUa

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