11 de mar de 2008

Tolerância zero

Bem que a gente tenta manter a calma e ser legal mas tem hora que só apelando pra ignorância mesmo.

Eu sempre acordo bem, tomo um banho revigorante e vou pro trabalho. No caminho vou sentindo o sol e a brisa na pele, pensando nos compromissos que tenho a cumprir e nos desafios que terei que enfrentar - e vencer. Sigo sorridente e aberta para as emoções do novo dia.

Aí entro na padaria, bar, boteco, ou o que o valha e peço um café, um simples e bom café. E nesse momento meu bom humor começa a se desvanecer.

Ora, o que é um café? Todos sabem - ou deveriam saber - que café é uma mistura de pó de café, água e às vezes açúcar. Vivo no Brasil (supostamente a terra do café) e por isso imagino em minha santa ingenuidade que se estou num estabelecimento que serve café, o balconista - mesmo que não tenha uma cara lá muito inteligente - deve saber o que é um café.Parto do pressuposto que se ele atende centenas de pessoas por dia pedindo café deve saber do que se trata, e é aí que eu caio do cavalo e meu humor matinal sofre um abalo considerável, porque não tenho muita paciência pra explicar coisas que pra mim parecem óbvias.

Chego e assim que o balconista se aproxima peço:

- Um café, por favor.

Ainda não descobri que insondável mistério se esconde por trás dessa tão singela e simples frase, porque pra mim seu sentido parece claro como água - ou como café.

O fato é que o balconista, com aquele ar de indiferença que lhes é peculiar, bota à minha frente um copo de café com leite.

Olho enojada e minha primeira reação é fixar aquela mistura repugnante como se eu tivesse super-poderes para desintegrá-la tal qual nos filmes de ficção. O balconista às vezes nota minha tentativa vã de eliminar a medonha mistura, noutras tenho que chamá-lo de volta:

- Pedi um café.

Ele me olha como se eu falasse um dialeto só conhecido por monges tibetanos ou como se eu fosse uma lunática que acabara de descer de um OVNI ou algo assim. Portanto explico, apontando pra horrenda mistura onde já nadam algumas natas:

- Isso não é café.

- É café com leite - me explica ele, como se falasse com um retardado mental.

- Eu pedi leite? Se eu quisesse leite pediria café com leite. Acontece que eu só pedi café.

Outras vezes, antes mesmo de servir, começa o festival de perguntas idiotas:

- Um café, por favor.

- Puro?

- Não, com açúcar.

- Não, com pinga.

- Não, um bem pecador. Pureza não me atrai, prefiro devassidão.

Às vezes mudam a pergunta e fica pior:

- Um café, por favor.

- Preto?

- De que cores vocês têm?

- Não, rosa choque com listras douradas.

- Não, louro de olhos verdes.

Perguntas desse tipo chateiam porque se eu pedi um café é exatamente o que eu quero. É claro que é preto, mesmo porque não conheço café de outra cor; claro que é puro, se eu quisesse misturado com farinha, ovos, ou seja lá o que for, pediria dessa forma. Esse tipo de pergunta faz com que haja cada vez mais e mais seguidores do Saraiva, saudoso personagem do programa Zorra Total.

A cada dia ele ganha novos seguidores, como me conta uma aluna. Ela viajava a uma cidade, cujo nome não conseguiria me lembrar agora nem que disso dependesse minha sanidade mental, e desceu numa dessas paradas à beira da estrada. Entra numa lanchonete e pede à garçonete:

- Um pão de queijo, por favor.

Essa, com uma desfaçatez de que só os pobres de espírito são capazes, pergunta:

- Do normal?

Ora, se há mais de um tipo à venda ela teria (pelo menos teoricamente) obrigação de explicar. Mas alguns atendentes têm essa mania de nos sonegar informação, na certa para nos obrigar a fazer perguntas que seriam absolutamente dispensáveis, e que podem nos expor a uma situação ridícula ou de ignorância absoluta. Como se alguém tivesse a obrigação de saber que variedades de pão de queijo são vendidas na espelunca onde ela trabalha.

Assim também lhe pareceu à minha aluna, que demonstra sua irritação na resposta atravessada:

- Não, quero um daquele que bate palmas.

(por Zailda Mendes)

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