3 de mai de 2008

Retrato de um maníaco

Josef Fritzl, 73 anos, pai e avô autoritário e vizinho agradável, levou por 24 anos uma segunda vida diabólica de escravocrata incestuoso em sua "casa dos horrores" em Amstetten, no leste da Áustria.

"Não se trata de um doente, pois se fosse doente não teria conseguido imaginar e realizar planos tão sofisticados", afirmou o psiquiatra e especialista forense Reinhard Haller, descrevendo Josef Fritzl como um "déspota que aterrorizou várias gerações de sua família".

Há quase um quarto de século, o vizinho agradável, eletricista de formação, elaborou um cenário diabólico que conseguiu enganar a própria esposa, os vizinhos e as autoridades.

Oficialmente, sua filha Elisabeth deixou a casa da família com 18 anos para se juntar a uma seita. Uma carta escrita por ela chegou pouco depois à residência familiar, em 1984, pedindo o fim das buscas.

Nos anos 90, Elisabeth deixou na porta da casa dos pais, um após o outro, três de seus bebês, junto com cartas escritas por ela pedindo que Josef e Rosemarie assumam as crianças.

Na verdade, todas essas cartas foram escritas no porão da casa, onde o pai mantinha sua filha trancafiada e abusava sexualmente dela.

Os vizinhos e os amigos do pai incestuoso admitiram que ele nunca levou os filhos ao colégio, que evitava as reuniões de pais de alunos e que nunca estava em casa quando as assistentes sociais faziam visitas de controle.

"Rosemarie sempre levava as crianças às aulas de música, aos treinamentos, ao colégio", comentou o padeiro Günther Pramreiter, vizinho dos Fritzl.

"Josef falava do tempo e de assuntos ligados à atualidade quando vinha à padaria. Lembro que ele se disse chocado pelo caso Kampusch", a jovem seqüestrada durante oito anos no porão de uma casa perto de Viena, de onde fugiu em agosto de 2006, disse o padeiro.

"Na sua família, ele era um mestre e um ditador", relatou um amigo alemão, Paul H., 69 anos. "Comigo, no entanto, era um cara legal, aberto e engraçado", acrescentou o aposentado, em declarações ao tablóide alemão Bild.

Ao mencionar uma viagem à Tailândia com Josef Fritzl, Paul H. contou que seu amigo "adorou" a massagem dada por uma jovem tailandesa e comprou lingerie feminina para "uma amiga".

"Seus sapatos estavam sempre impecáveis e sua gravata nunca estava torta, parecia um diplomata", afirmou ao jornal Oesterreich Gerda S., uma ex-colega de trabalho.

Após longos interrogatórios desde sua detenção, na noite de sábado, Josef confessou segunda-feira o seqüestro, as relações incestuosas das quais nasceram sete filhos, a eliminação do corpo de um bebê morto pouco depois do nascimento.

Se a acusação de homicídio por negligência for mantida pela morte deste bebê, Josef pode ser condenado à prisão perpétua. Os seqüestros e estupros são passíveis de penas de até 15 anos de prisão.

Nos anos 60, ele trabalhou pelo gigante da siderurgia Voest na Áustria, que o contratou, segundo a imprensa, apesar de uma pena de prisão por tentativa de estupro.

Proprietário de vários apartamentos, que alugava, Josef também teve um restaurante nos anos 70. O estabelecimento foi destruído pelas chamas, e ele foi condenado por incêndio voluntário e fraude do seguro.

Desde então, esta condenação e a precedente foram eliminidas de sua ficha, que estava limpa em 1994, ano em que as autoridades de Amstetten permitiram a adoção de seu primeiro "neto".

Além disso, a polícia ainda estava verificando nesta quarta-feira uma eventual ligação de Josef Fritzl com o assassinato de uma jovem, vítima de abuso sexual em 1986 e cujo corpo foi encontrado perto de seu estabelecimento.

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